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  • 22.04.2020 - 11:10

    Forasteira secretária de Saúde do Conde revela “calvário” pessoal por causa da Covid 19


    Marcos Marinho

    Um longo e bem redigido artigo assinado pela advogada pessoense Renata Martins, que vem  a ser a secretária municipal de Saúde do Conde, com concordância verbal impecável e todos os devidos pontos nos ‘is’, publicado em São Paulo no portal OPERAMUNDI, vai dar muito “pano pr’as mangas” para a oposição no rico Município do Litoral Sul paraibano atualmente governado por Márcia Lucena (PSB), a ex-secretária estadual da Educação que está obrigada - não por causa do novo Coronavírus - a não arredar o pé (inclusive o que está amarrado a uma tornozeleira judicial) de casa.

    A história contada por Renata sobre o seu pessoal sofrimento ante as limitações impostas pela quarentena é longa, mas não chega a ser cansativa. “Estou dormindo sozinha na nossa suíte de casal de casa, porque sou a única que não cumpro o isolamento social por dever de ofício”, revela em tom lamentativo certamente à falta do abraço do companheiro na alcova.

    Ossos do ofício, diria Byra de Jacumã, o irreverente pescador que meteu-se às letras via Facebook e tem sido cadeira cativa nos estudios do programa ‘Intrometidos’ da Capital onde a secretaria do Conde tem residência fixa.

    Aliás, “privilégio o nosso morar numa casa de três quartos!”, faz questão de frisar a ilustre assessora da filha do professor Iveraldo Lucena.

    A quase lamúria de Renata não é de dar dó. Pelo contrário, é reveladora do seu particular mundo de privilégios que não se encerra na “casa de três quartos” à beira do Oceano Atlântico, nada que se compare aos cômodos humildes ou casebres da Mata da Chica, do Ademário Régis, do Gurugi, da Capadócia...   

    Vejamos alguns parágrafos iniciais do seu penoso relato:   

    - “Sábado que antecede a Páscoa, acordei às 5h30. Cansaço, preguiça, rolei por mais 5 minutos cronometrados na cama. Estou dormindo sozinha na nossa suíte de casal de casa, porque sou a única que não cumpro o isolamento social por dever de ofício.

    Levantei, tomei banho, e fiz meu café com tapioca. Precisava estar pronta às 6h30, quando um carro viria me buscar para ir para Conde, cidade de aproximadamente 25 mil habitantes da Paraíba, litoral sul, onde trabalho como secretária de Saúde.

    A casa estava silenciosa, não fosse o barulho dos ventiladores, que tentavam afastar o calor desses dias dos meus filhos e de meu companheiro, que dorme no quarto de visitas.

    Privilégio o nosso morar numa casa com três quartos!

    Apressei-me tentando afastar a vagareza que me toma todas as manhãs.

    6h25 saí pela porta de trás da cozinha, entrei na lavanderia e peguei meu sapato, minha bolsa, coloquei o tênis e a calça jeans, a camiseta, peguei o chapéu e arrodeei a casa para sair pelos lados. Desde que a quarentena começou, tentamos afastar a possível contaminação da casa em função do meu trabalho com medidas de prevenção, como essas”.

    Renata felizmente viajou ao Conde já de barriga cheia. Tapioca daquelas do seu fino café da manhã não tem mais não na mesa da grande maioria do desassistido condense, humilhado na sua dignidade com dois pães dormidos, um quilo de macaxeira já mofando, uma peça pequena de cará, duas cenouras, quatro tomates, quatro cebolas, quatro batatas inglesas e dois pacotes de fubá que a ‘generosa’ prefeita mandou distribuir sob o apelido de cesta básica.

    Mas voltemos ao piedoso relato da doutora Renata Martins na mídia paulista em busca de holofotes nacionais para o seu ‘calvário’ (sem trocadilho) no Conde:

    - “Em outras situações, quando era preciso trabalhar aos sábados, usava nosso carro para o deslocamento. Mas até isso temos tentado evitar, para diminuir os riscos de contaminação. Portanto, um carro da Secretaria de Saúde veio me buscar, como vem fazendo com os demais profissionais da Saúde de Conde que moram em João Pessoa, capital, e também dentro da própria cidade de Conde, em função da paralisação do transporte coletivo e da dificuldade de deslocamento.

    Chegamos a BR 230, e seguimos rumo a Conde. Na ida, fui lendo as mensagens do WhatsApp e postando fotos nas redes sociais da Secretaria de Saúde de Conde.

    Ser secretária de Saúde de uma cidade com pouca estrutura e pequena como Conde significa fazer de tudo um pouco, da reunião ao ofício, registrar os eventos, postá-los nas redes, presidir comissões, redigir termos de referências para as aquisições, editais, o que for preciso. Tem que ser pau para toda obra!

    O motivo da ida a Conde em pleno feriado deve-se à decisão tomada pela Comissão de monitoramento da Covid-19 da Prefeitura de instalar barreiras sanitárias nas três entradas da cidade. Na reunião com a equipe de gestão da Secretaria de Saúde nesta terça passada, decidimos por começar as barreiras sanitárias neste feriado. Isso porque as praias mais lindas da Paraíba encontram-se em Conde, onde muitas pessoas têm casas de veraneio. Com a chegada do feriado de Páscoa, previmos aumento de pessoas, que já era percebido nas regiões de Jacumã e Carapibus nas últimas semanas de quarentena. Fui pra Conde para monitorar e dar apoio às barreiras, como ver a questão da água aos trabalhadores, refeições, pilhas para os termômetros com raio ultravioleta, dentre outras questões. Aproveitei para planilhar as notificações decorrentes das medições de temperaturas acima de 37,8° feitas nos últimos dias nelas, para monitorar as pessoas que adentraram na cidade.

    A implantação das barreiras sanitárias necessitou de planejamento para atender às recomendações de evitar o contágio pelo coronavírus pelos trabalhadores da Saúde e garantir a sua saúde: compra de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e dos termômetros possíveis de aferir a temperatura à distância (termômetros sem contato com infravermelho). Ausentes do mercado para compra, foi preciso que um profissional da Secretaria de Saúde fizesse real investigação mercadológica, deslocando-se para Recife e Caruaru em busca das poucas unidades encontradas, passíveis de pagamento a ele por indenização, graças às facilidades que a legislação federal trouxe para as aquisições públicas que visem combater a covid-19. Ufa, ao menos facilidade para gerir os recursos públicos essa doença trouxe, um dos grandes gargalos da gestão pública que impacta sobremaneira na implementação do Sistema Único de Saúde nos territórios”.

    O artigo de Renata é deveras revelador...

    Ela culpa a burocracia, leia-se a Lei de Licitações, por exemplo, por entravar providências de socorro popular, no que se vale para justificar a inoperância da Pasta que dirige. E mostra então contentamento porque nesses tempos da Covid 19 a calamidade pública decretada no Município a pedido da patroa sem que na terra dos Ribeiros, Régis e Lundgreens da vida agora a história felizmente passa a ser outra.

    É torrar a grana do jeito que der, que não há necessidade de autorização prévia e tampouco prestação de contas!

    Tudo mesmo que um ano eleitoral - de reeleição, no caso de Márcia Lucena - quer e ansiava.

    Voltemos à doutora:

    - “Pois bem, ainda faltava contratar profissionais para as barreiras sanitárias, por meio de processo seletivo simplificado, o que ainda não aconteceu e que nos fez, no feriado, convidar profissionais de serviços de saúde que estariam paralisados para atuar, de forma remunerada, nessas barreiras.

    Na quinta-feira, primeiro dia, percebi o quanto a medida tinha sido importante. Mais do que aferir a temperatura das pessoas, já que a febre acima de 37,8° é um dos principais sintomas da Covid-19, as barreiras sanitárias serviram para demonstrar para os visitantes da cidade a preocupação da Prefeitura, por meio da atuação conjunta da Secretaria de Saúde com a Guarda Civil Municipal, com a recomendação de não haver aglomerações nem nos espaços públicos nem nos privados. Importante dizer que a prefeita Márcia Lucena recebe muitas denúncias de festas, churrascos que acontecem na cidade, principalmente nas regiões das casas de veraneio, e por essas e outras questões de âmbito administrativo decretou estado de calamidade pública na cidade. A população sentiu-se cuidada!

    Neste sábado, dia 11, minha percepção das barreiras continuou a ser positiva. Todavia, me bateu uma desesperança quando percebi a quantidade de carros que estavam se acumulando em filas nas duas principais entradas da cidade. Como só conseguimos três termômetros apropriados para uso em pessoas em áreas externas, não pudemos ampliar as aferições nas entradas. A desesperança decorreu da quantidade, centenas de carros adentrando na cidade vindo de outras cidades, João Pessoa, Recife, Pitimbu, Alhandra, Cruz do Espírito Santo, Campina Grande, a grande maioria vindo veranear, embora o acesso às praias esteja impedido. Medição feita pela Guarda Civil Municipal de Conde indicou a entrada de aproximadamente 5600 veículos na quinta-feira, 6600 veículos na sexta-feira e 7600 veículos neste sábado! Que isolamento social é esse, com tamanho deslocamento?

    Bateu agonia, desespero!

    O que será dos moradores de Conde após esse feriado, com o grande transitar de pessoas pela cidade? O que pode fazer uma Secretaria de Saúde, com poucos recursos para dar conta dessa irresponsabilidade social de investir no deslocamento entre cidades?

    Conde não tem hospital público, não tem respirador, depende dos hospitais de João Pessoa para atender sua população em casos de média e alta complexidade decorrentes da Covid-19.

    A grade maioria da população de Conde, 75%, é extremamente pobre e vive com renda de até R$ 89,00 por pessoa por mês. Nesse sentido, se o coronavírus chegar na cidade, as repercussões serão desastrosas, o que pode prejudicar imensamente a população condense, que, apesar de todos os investimentos feitos pela Prefeitura nos últimos 3 anos, fortalecendo políticas públicas de efetivação de direitos e de afirmação das identidades e potenciais econômicos municipais, expressa a realidade brasileira da desigualdade social.

    Fica para mim a sensação de agonia, já que embora as barreiras sanitárias tenham sido uma ação pública acertada da Secretaria de Saúde, elas detectaram o quanto o isolamento social não vem sendo feito.

    Mas amanhã é um outro dia, outro dia de guerra contra a Covid-19, outro dia de busca de novas saídas para esse cenário assustador. A força da vida há de prevalecer!

    A Covid-19 reforça as letras da música da melhor cantora brasileira de todos os tempos, Elis Regina: “vivendo e aprendendo a jogar”.

    O artigo, aqui esmiuçado, pode até mesmo ajudar a doutora Renata a encontrar quem dela tenha pena, sobretudo no território do seu berço e onde ela deseja ser consolada pela “bravura” e “competência” em termos de gestão pública.

    Mas, no Conde, nunca!

    O artigo consegue, sim , é provar a incompetência dela e a má vontade da sua  Chefe: “Conde não tem hospital público, não tem respirador, depende dos hospitais de João Pessoa para atender sua população”, é o que diz pela sua boca a ilustre forasteira que Márcia botou pra acabar com a Saúde do heroico rincão da beira do mar.

    apalavraonline