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  • O inferno na Paraba

    10/04/2014

    Reencontrei, inesperadamente, José Ronald Farias, de antiga e amistosa convivência, que há muito não via. Não nos ligava amizade estreita, mas simpatia recíproca, somente. Discretamente ele aproximou-se da mesa onde eu conversava com amigos no Manaira Shopping, sentou-se, mostrou-me um livro que trazia − o seu romance O DIABO CHEGA PRIMEIRO, cujo personagem, digo de passagem, não encontrei ao longo da narrativa, mas o inferno inteiro. Algo como na “História Universal da Infâmia”, de Borges, que copia autores, tendo o nosso romancista preferido a própria vida, a sociedade onde habita, infinitamente variável na sua totalidade, não em mostras, para montar a sua obra. A modesta edição, de capa em cartolina lisa, de um amarelo impreciso, trazia curiosa ilustração do busto de uma mulher visto de perfil, com a cabeça levemente caída, os cabelos longos e o design indicativo de uma ex-pressão do pensamento: num círculo figuram dois homens de pistola em punho, num enfrentamento mortal: o mais alto com a arma apontada para a cabeça do mais baixo que tinha o tronco levemente dobrado, numa posição de ataque mirando o peito do outro, ou, talvez, caindo baleado.
    Desde logo, por achar imprescindível, deixo clara a minha concepção sobre a arte, no caso a arte literária, particularmente a literatura imaginativa, como produto social e fenômeno de cultura, que comporta variados enfoques na abordagem e estudo crítico-interpretativos. Em muitos casos exsurge, de logo, a particularização irrelevante, o cientismo extravagante, frascário. Aqui não é o caso.
    Considero a acumulação de conhecimentos e a erudição, revelados na crítica, uma “faca-de-dois-gumes”. Seria também no romance? Com certeza. Se por um lado orienta o pensamento, leva à descoberta de aspectos singulares do desenvolvimento do objeto do estudo, por outro, facilita generalizações, elaborações teóricas que valorizam exclusivamente o texto em si, tornando-o um apêndice desnecessário. A construção da práxis.
    A expressão dialética de forma e conteúdo esgota o estudo da arte, objetivamente considerada, não me cansarei de repeti-lo, porque so-bejamente demonstrada por Georg Lukács, Ernest Fisher, entre outros, autores na minha linha de pensamento.
    Escrevi alhures. As questões essenciais da arte poética, ou literatura de ficção, conforme variam as denominações e a definem modernamente, continuam resolvidas na “Poética” de Aristóteles. Tal se entende quando à sua composição, submetendo-se à essência imitativa da arte, que se explica na solução do mito. A substância da criação literária resulta da racionalidade em que consiste o movimento da natureza e do pensamento. E imita homens “em ação”, que sempre desenvolvem caracteres definidos, quer de “alta ou baixa índole” – heróis individuais ou nações, indistintamente – por onde se vê que literatura de “nobres” ou de “plebeus”, de indivíduos e de castas, são imitações humanas, distinguindo-as apenas, aqueles aspectos da essência imitativa, de sua realização artística, e as circunstâncias de tempo e lugar. Eis o romance de José Ronald Farias.
    O romance, portanto, é obra de comunicador, carregado do peso ideológico inevitável. Instrumento de relações específicas, não propõe necessária e prioritariamente filosofias. Expõe fatos à luz de princípios, que os reduzem às categorias da conduta, do Ser. Se “retrógrados” ou “progressistas”, revelam o tecido social do comportamento humano, estímulos e reflexos múltiplos e variáveis, certamente observáveis à luz da ciência e da filosofia, mediante métodos apropriados, como na realização de uma anamnese num consultório médico. Milan Kundera ataca a “vulgaridade” e lamenta a morte do romance, acentuando que a literatura moderna acabou, só que não surgiu nada no seu lugar. E com o desencanto, que dá para perceber nas suas palavras, condena o uso de “compassos de uma sinfonia de Brahms na propaganda de papel higiênico”, e “aplausos para versões abreviadas de romances de Stendhal.”
    Mas, voltando ao inicio deste comentário, em certo momento antes de começar a leitura, quis pensar algo desagradável sobre o livro, e me contive. O autor não é do tipo de pessoas que se prestam à crítica ou à galhofa. Apesar do trato comum é personalidade destacada na capital. É PhD em física nuclear. Conversamos sem maior efusão. O livro que eu folheava, ele adiantou, fora prometido para outra pessoa, e dirigiu-se à livraria para pegar outro exemplar para mim. Agora sinto a complicação e dificuldade que tenho pela frente, sem maior experiência e conhecimento acadêmico da teoria da literatura (que se impõe), comentar e fazer análise crítica de tal autor. Farei apenas breve comentário apreciativo. Somente.
    A leitura logo nas primeiras páginas abalou-me. O livro é um monumento, falo como se designa popularmente algo acima do comum; tecnicamente e literariamente também, pois se trata de uma narrativa de fatos e descrição de raciocínios, da interpenetração de agendas, da elaboração de um estilo recriado ou aprimorado por ele, de um romance na linha moderna do realismo nada memorial, mas sem desprezá-lo, vivo em referências, algumas delas ilustrativas. O tema, recorrente por si, são os desajustes da vida das pessoas, o desenlace trágico de suas relações criminosas. Aí se encontram os grandes conflitos. O cenário é a nossa pequenina e heroica Paraíba, mulher macho sim senhor!
    De maneira curiosa, o autor começa, como é praxe nas peças musicais, com uma abertura (não um prefácio ou apresentação), um tanto patética. Talvez desarrazoada, intuitiva e pedagogicamente aliciadora. Deblatera um advogado (profissional maldosamente tido pelo populacho como símbolo do “jogo duplo”) imbuindo-se de sentimentos cristãos de justiça, e também acusatórios. Sim senhor, a overture é patética. Porventura atravessar uma rua onde trafegam veículos automotores não é algo arriscado? Em tudo há um misto de emoção e tragédia. Assim a vida é travessia, como assinala a nossa vã filosofia. Como a leitura deste romance.
    E o contexto, épico-picaresco (?) desta narrativa? Lembra, na caracterização dos personagens, um manual científico-técnico-descritivo de psiquiatria. Recorrendo à história, a imagens antigas, remonta a Felipe II de Espanha, e de circunstâncias atuais na vida dos personagens, que assimila o córtex cerebral, imagens laboratoriais. Em suma, uma verdadeira tese neuropsiquiátrica do fenômeno patológico da compulsão. Mas o que tem que a literatura de ficção com tais especializações? Indagarão. Tudo, eu respondo, porque a vida é constituída dessa interação espírito/matéria. (continua).
     — com Zé Euflávio Euflávio e outras 19 pessoas.


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