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  • Hosanas ao Amigo Velho Ernani Stiro

    04/03/2015

     Leitura atrasada de "O Canto do Retardatário" do contra-parente (explicarei a seguir) escritor e político Ernani Satyro. Eis uma pessoa genuína, vencedora. De sólida formação intelectual, corajoso na defesa de suas ideias e convicções. Legendário inegavelmente, na mais ampla acepção do termo. E peremptório isto sim, casmurral. Reacionário diplomado. Não fazia concessões. Vasta é a sua produção em títulos que constam de “Plano Inicial das Obras Completas de Ernani Sátiro”, elaborado pela FUNES (fundação que traz o seu nome). Romances e ensaios, versos, crônicas de sabor jornalístico, discursos, conferências. Presença escolhida nos "poetas bissextos" de Manoel Bandeira, transcrito, biografado e elogiado. Ali está o João Guimarães Rosa, do “Magma”. Uma honra para as letras tabajaras. Seus versos muito pessoais, também parafraseiam, falam nas letras e autores clássicos (Camões, Augusto, Pessoa), no amor, na tentativa utópica de reconstrução do mundo, na administração pública, na tradição da chefia familiar coronelista na política, na saudade. "Procurei acabar a fundura do mar [...] cadeiras na calçada". Mas reconhece: "Todos nós, afinal, somos ciganos [...] Na entrada do porto tem uma pedra [...] Do meu amor em Olinda [...] Recife, poema e chaga do Brasil". Ah! O Recife que reconstruiu a minha vida, que renasceu no exílio campestre – somente pensando, refletindo, vivenciando a vida mesmo, que é o que vale. Algo do amigo velho na minha estrada do devir. Na esquerda ou na direita, no amor e na guerra. Ele numa modéstia que não lhe cabia, afirmou que, a sua estrela se não era brilhante era constante. Tudo em capítulos precisos: “Canto da Inquietação das Cismas”, “Canto do Amor e da Mulher”, Canto da Solidão e da Morte”, “Canto dos Poemas de Circunstância”. Orador solene, sentencioso. Ernani era filho de Miguel Sátiro e de Capitulina, que enviuvara de Inocêncio Leite, (aí está a linha do contraparentesco) era mãe de Firmino, sobrinho de minha avó Chiquinha, primo do meu pai, meu primo-segundo e padrinho de batismo. Ernani era, portanto, nosso "contraprimo". Nos desentendemos na política. Caprichos do meu lado e do dele também. Mas não traía, só perseguia. Resisiti. Governador do Estado ele me combateu e derrotou numa eleição para deputado estadual. Fui reeleito no pleito seguinte. A arte não é o que satisfaz o ego. Pelo contrário, é o que desperta (ofende) a consciência crítica, circula, viaja no espaço e no tempo. Descobre, identifica e cria mundos. O momento atual é ativamente dinâmico ─ induz profissionalismo artesanal, busca e descoberta de materiais, instalações. Ernani escreveu num poema: “Vamos todos viver a nova vida / [...] Mas vamos logo ó telespectadores. /Apreciar as guerras e os crimes, /As mulheres nuas /E mais ainda, a destruição / Da Língua e da Família, / Nas novelas de televisão”. Não transigia no tocante a princípios éticos. O despeito e a frustração revelam o traço do caráter, da personalidade. Maculam a arte. Li alhures que pregaram um pincel embebido em tintas no rabo oscilante de um elefante, que alcançava uma tela. Era um fim de tarde em frente ao mar. Meros circuitos neuroniais estimulados pelo instinto e necessidade de alimento para o estômago. Intitularam o quadro "Pôr de Sol no Adriático". Não é o caso de Ernani Sátiro, evidentemente, com o seu preparo intelectual, a sua inteligência crítica: ele ia direto ao assunto. Outros que ponham a carapuça. Aqui neste “Maio na Fazenda”, relembro sem despeito, mas com saudade o “amigo velho”. Estava no seu romance “O Quadro Negro” um inverno criador, como dizem os sertanejos, quando chove o suficiente para desenvolver as pastagens e as lavouras. E os relâmpagos do fim do período chuvoso são discretos, como fósforos acesos no horizonte. Andando pelas roças senti aquela alegria interior do campesino nessas circunstâncias. Estamos bem no corrente ano. A mata cresceu, avolumou-se, a rama fechou nas capoeiras, a gitirana, alimento de primeira pra vacaria, com flores brancas e roxas cobre as moitas, as cercas, sobe nas árvores, o milho bonecou, o feijão canivetou, e já comemos verde. Este homem governou o Estado com eficiência e honestidade comprovadas. Neste campo nenhum o superou. Quanto à política, não perdia tempo em argumentar “filigranas jurídicas” meramente formais, quando se impunha o interesse público, as reivindicações da coletividade. “Grande é a vida”. Bem sentenciou o Amigo Velho, e para ele um abraço de reconhecimento no seu valor, na sua franqueza, na sua coragem. Preparo-me para a viagem, o abraço do outro mundo. Lagoa de Baixo, 2008. 9 − DORGIVAL TERCEIRO NETO. RAMALHO LEITE O NOVO IMORTAL Ontem foi eleito o homem público e também homem de letras Severino Ramalho Leite, para suceder Dorgival Terceiro Neto na cadeira que ocupava na Academia Paraibana de Letras. Sem demérito para outros, Ramalho foi candidato único. Com ele convivi uma legislatura inteira como deputado estadual, e posso testemunhar sobre sua inteligência, seu espírito público, a sua atenção para os assuntos ditos culturais. Recolhi-me ao sertão e ele seguiu em frente, no jornalismo, na política. Um vencedor. Sucedeu com o seu, o feudo dos Bezerra em Bananeiras. Lá, como no tempo do meu amigo Clovis Bezerra, agora só dá ele Ramalho. Um gênio da inteligência e da política. Acho que na APL ele pretendia passar qualquer outro na contagem dos sufrágios, pois, mesmo candidato único, depois de encontros e conversa pessoal, telefonava-me quase todos os dias sobre o meu comparecimento. A preguiça da idade impediu a minha viagem. Como sabem moro longe. Questão de dificuldade, eu daria presença. Mas não era o caso. À sua posse, não faltarei. Um dever do reconhecimento, da amizade. Dorgival foi um entre os acadêmicos, que estimulou e apoiou a minha pretensão de uma cadeira na academia. Um dever. A minha lembrança de Dorgival Terceiro Neto sustenta-se na sua crônica de estudante no colégio de Patos, depois hóspede da Casa do Estudante em João Pessoa - quando a Paraíba começou a conhecer e admirar a fortaleza do seu caráter incorruptível. Daí pra frente a índole, o temperamento definiram o cidadão que permaneceu impoluto como convém a todos, ao homem público principalmente. Não privei de sua convivência no período de sua vida estudantil. De uma geração, um pouqinho mais nova, e estudando no Recife, pessoalmente não o via, mas a sua legenda chegava aos meus ouvidos nas terras pernambucanas. Era o sertanejo que não traía a fala e os hábitos. Autêntico mesmo. Conheço gente de Sousa que fala "axs coisaxs".Tipos também chiam aqui de João Pessoa. Dá pena. Conheci Abelardo Jurema, o velho, que morou a vida toda no Rio de Janeiro e não tinha esses tiques na pronúncia. O Abelardinho pode chiar porque nasceu e criou-se no Rio. Dorgival não chiava. Mas o meu conterrâneo João Estrela falar "axs exscolaxs" faz pensar que a sua popularidade política tem aí suas raizes, porque desconheço outro mérito intelectual ou profissional que o destaque. E como administrador público nem se fala. Antonio Mariz achava que a risada de Zé Dantas acabara com a liderança de Jacob Frantz em São João do Rio do Peixe. Não encontrava outra explicação. Isso me disse muitas vezes, matutando métodos para as nossas campanhas eleitorais. Mas voltando ao caro Dorgival, assinalo a sorte, o destino que o fez vizinho de moradia, nas proximidades do Clube Cabo Branco, do matuto-político-escritor Zé Cavalcanti. Acocorados os dois na calçada eles conversavam como bons sertanejos. E os moradores do bairro passavam e os cumprimentavam, e não viam nada demais. Como governador Dorgival era o mesmo homem: reto, digno, beradeiro. Sousa e a família Mariz lhe devem a pesquisa que descobriu no João Belchior Marques Goulart um "Marques" de Sousa, que mandou para os pampas bachareis ilustres que lá se fixaram como Benedito Marques da Silva Acauã, parente também do nosso jurista Antonio Elias de Queiroga. A cidade de Sousa alardeou por muito tempo a sua performance política na Câmara, no Senado, no Governo do Estado. Faltava a Presidência da República. Pois Dorgival ilustrou a nossa tradição com a sua pesquisa, que lhe conferiu o exercício do mais alto cargo da Nação. Os marizistas comemoraram. Muito mais tenho para dizer, mas o farei noutra oportunidade. Finalizo chamando a atençaõ para os vultos ilustres que Taperoá tem dado à Paraíba: cito Ariano Suassuna, Dorgival Terceiro Neto, Manelito Vilar e Balduino Lelis. Por enquanto. Dorgival, governador do Estado, presidiu reunião para discutir e definir um plano de atividades da FUNCEP (Fundação Cultural do Estado da Paraíba) recém-criada, que eu dirigia, para receber recursos federais do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional) para conservação e restauração de cidades e monumentos históricos do país. Ilustro com a foto abaixo. Sentei-me ao seu lado na cabeceira da grande mesa de reuniões do palácio, como presidente do órgão que cuidaria da programação e execução do chamado “plano de cultura” da Paraíba. Na minha passagem na FUNCEP, cidades e edifícios e sítios foram relacionados, treinados “mestres” da construção civil para a tarefa de restauração. Refiro como exemplos, a estação do trem de Campina Grande, a Casa da Pólvora, e, na cidade de Areia, indicado pelo coronel José Rufino de Almeida, o treinamento e especialização pelo IPHAN no Recife, de um mestre, que realizou o trabalho de restauração do sobradão colonial, à suas expensas, onde se escondeu num cômodo secreto, o revolucionáro Borges da Fonseca. Também na minha gestão patrocinei a ida de Raul Córdula como representante da Paraiba no “Salão Global” que reunia artistas nordestinos. Ele conquistou o primeiro lugar na mostra. Tudo partiu de Ivan Bichara e Dorgival. Ramalho amigo, não precisa lembrar a sua posse. Lá estarei. Festa grande, que o orgulho brejeiro não dispensa."


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